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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

REVOLUÇÃO DE JASMIM

Todo dia o noticiário internacional fala algo de importante que aconteceu no mundo árabe; o mais comum entre nós é ouvirmos o termo “Oriente Médio” e ainda mais comum mesmo é assistirmos aos conflitos entre palestinos e israelenses, seja por alguma discórdia política recente, seja pelo controle de alguma terra que esteja sob domínio de um ou de outro. O que muita gente esquece, ou não sabe, é que o mundo árabe é muito mais vasto e interessante do que aquele que costumamos a observar através dos conflitos ao redor de Israel (que é predominantemente judeu).
O mundo árabe nem sempre está ligado diretamente a religião islâmica, isso porque o conjunto de nações mouras, salvo uma ou outra, convive com outras etnias e outras crenças; e mais importante ainda que todos saibam é que o Deus que se crê entre judeus, cristãos e mulçumanos é o mesmo; o que muda são os profetas, ou como se acredita no cristianismo, o filho (ou enviado) por Deus na Terra; é neste ponto em que estas religiões se afastam e cada uma crê em alguém especial.
O mundo árabe é o conjunto de países que falam a língua árabe; bom também saber que esta língua não é uniforme e sofre variações incríveis, assim como todas as outras línguas faladas nos dias atuais. Oficialmente hoje 22 países são reconhecidos como árabes; eles se distribuem do Oceano Atlântico e o Mar Arábico; do Norte da África até os limites do Mediterrâneo, chegando ao Oceano Índico.
Não há uma denotação clara e evidente para definirmos alguém como árabe; a Liga Árabe, a mesma que tenta unir estas 22 nações em torno de uma mesma mesa de interesses, define em seu capítulo de fundação que “um árabe é uma pessoa cuja língua é o árabe, que vive em um país de língua árabe e que tem simpatia com as aspirações dos povos de língua árabe”; portanto se conclui que eu, que sou de origem espanhola e portuguesa, caso fosse morar no Egito (por mero exemplo) e falasse árabe, seria então um árabe legítimo!
Argélia, Bahrein, Ilhas Comores, Djibuti, Egito, Iraque, Jordânia, Kuwait, Líbano, Líbia, Mauritânia, Marrocos, Omã, Palestina, Qatar, Arábia Saudita, Somália, Sudão, Síria, Tunísia, Emirados Árabes Unidos, Saara Ocidental e Iêmen, formam hoje o conjunto oficial de nações que constituem o mundo árabe; com mais de 360 milhões de pessoas e de maioria mulçumana; que crêem em Deus, aquele mesmo do Velho Testamento, mas que acreditam na existência de Jesus Cristo, mas não como filho unigênito de Deus. Para os mulçumanos Maomé, o Grande Profeta, foi o inspirado por Alá para ditar as regras do mundo.
Todas estas nações sofreram ao longo de milênios intervenções severas por parte de outros povos; quer fosse para dominá-los ou para simplesmente exterminá-los, dezenas de outras etnias sempre tentaram fazer da língua e cultura árabe um breve apontamento dos livros antigos de história; mas estes outras etnias, como os germânicos e romanos, subestimaram a imensa capacidade dos árabes em sobreviver aos distúrbios e de ressurgir das cinzas.
Muitos conseguiram conter temporariamente a força e a ira dos árabes; alguns até conseguiram se instalar como líderes naturais desta gente, mas todos os que não andaram de acordo com os anseios populares acabaram sucumbindo após algum tempo de domínio. Aliás, esta é a regra que jamais será superada; o povo quando quer de verdade, acaba mudando o curso natural de toda história e somente o povo consegue fazer isso, porque governante nenhum é mais forte do que o povo unido!
Mas parece que com os árabes as coisas são diferentes; eles possuem aquilo que chamamos aqui de “Paciência de Jó”; permanecem calados por anos, às vezes séculos, e quando se dão conta de que estão sendo enganados, usados, subestimados e enfraquecidos, dão a volta por cima, organizam suas revoluções e depõem seus déspotas coroados. Recentemente Hosni Mubarak, ditador egípcio, considerado como o último Faraó, passou por esta rígida regra árabe e ajoelhou diante da máquina popular e deixou o poder livre para que outro fizesse aquilo que o povo deseja.
Os conflitos entre Governo e egípcios não durou de fato uma semana, mas as reclamações já vinham sendo escutadas há décadas. O grande erro de todo governante ditador é acreditar que as forças militares podem lhes dar proteção “ad eterna”, o que constitui em grande e vulnerável engano, pois grande parte dos exércitos também sofre as mesmas conseqüências do povo. Para se ter uma idéia breve, um oficial militar egípcio, encarregado de dar proteção ao Presidente, ganha pouco mais de R$ 150,00 por mês. Por mais que acreditemos que as forças leais tenham alimento, casa, moradia, educação e saúde garantidas pelo Governo, R$ 150,00 por mês não dá para nenhum ser humano pensar numa vida melhor, mesmo que economize tudo que ganhar ao longo de 50 ou 70 anos de trabalho!
Por mais que imaginemos que muitos destes árabes sejam desapegados das coisas materiais, como estamos acostumados a ser, ninguém em sã consciência acreditaria que alguém que ganhe R$ 150,00 por mês poderia projetar uma vida melhor para seus filhos, que fatalmente irão querer ter carro, casa, alimento, saúde, educação e lazer. Se no Egito que possui uma pobreza menor um oficial do Governo, ganha R$ 150,00 por mês de trabalho, o que podemos imaginar de quanto ganham a maioria dos cidadãos que sequer têm um emprego público? – Foi por coisas assim que Mubarak caiu e é por coisas análogas que outros povos querem a imediata retirada de seus líderes do poder a exemplo do Irã!
O povo não é trouxa; ele sabe quando dá ou não para alguém que esteja no Poder melhorar; o povo, mesmo analfabeto, sabe quando alguém está tentando lhe ajudar ou quando está lhe extorquindo. Pode ser conveniente que muitas situações fiquem inertes por anos, mas chaga um dia em que é preparada a vingança!
É muito bom quando podemos ao invés de ler a história, participarmos dela. Poder eu ter estado em alguns destes países árabes, por poder ter vivido um pouco com alguns destes povos e poder ter conversado sobre seus governos, apenas por mera chance de antropologia, é que eu os compreendo perfeitamente e me ponho a imaginar o que é sofrer anos e anos nas mãos de um ditador que se rotula líder.
O caso do Egito não é isolado e jamais o será; os ventos da mudança estão soprando em direção do Irã, Líbia, Iêmen, Bahrein, Tunísia e Síria; os povos destes países, ainda que timidamente, estão indo às ruas para exigirem mudanças radicais, pois já não suportam mais sofrer nas mãos de pessoas malfazejas e execráveis; pessoas que normalmente usam o nome de Deus e a força de um fuzil para se manterem no trono enriquecendo suas famílias em detrimento da miséria popular.
Saddam Hussein quando comandou o Iraque após anos, entre a bonança e a miséria do povo, pensou que seus desafios ao mundo pudessem ser contidos com seu exército, mas ao cair da primeira bomba estadunidense em solo iraquiano o que se viu foi outra coisa; os leais soldados de Saddam se renderam em massa e até hoje, somente é difícil render 100% da população, porque ainda há os obstinados que fazem a guerra de fato pessoal, salvo em contrário, o Iraque seria rendido completamente no primeiro dia de incursão militar internacional. Isso porque o povo estava cansado de passar fome e enxergar horrores em nome de Deus, enquanto seu líder ficava cada vez mais rico e mais poderoso.
A tática comum entre os falsos líderes é enfraquecer sua tribo; um povo sem educação, alimentação básica e dinheiro fica completamente a mercê do Poder, mas tudo isso tem limite e pode se constituir em uma ação reversa. Quando nos sentimentos completamente acuados, costumamos fazer de tudo para sobreviver; muitas vezes este “fazer de tudo” inclui expor ainda mais nossas vidas. É como num assalto em que se tem a certeza de que seremos mortos pelo nosso algoz; se temos uma única chance, nos aproveitaremos dela para tentar ficarmos vivos e se morrermos por causa desta única ação, mau algum será extra, pois já tínhamos a certeza da morte!
A imprensa diz que o que aconteceu no Egito foi a gota d’água para desencadear uma linha de revoltas populares pelo mundo árabe, mas na verdade, todos os outros povos já estavam de olho nas mudanças desde a invasão americana ao Iraque e posteriormente ao Afeganistão; os árabes, que estão acostumados as reformas políticas que só favorecem ao Governo, viram claramente que pouco ou nada iria mudar com relação a eles próprios; enxergaram que há alianças e invasões, que há cooperações e silêncios entre os governos deste e daqueles países, mas que eles, o povão, acaba amargando a pior parte de tudo; se há benesses o povo não participa dos lucros e se há desgraças o povo é quem paga a conta; desta forma até quando é bom acreditar no governo?
Vejamos agora onde o mundo está mais fragilizado e como isso pode preocupar a nós que vivemos tão distantes.
Grande República Socialista Popular Árabe da Líbia de Muammar Abu Minyar al-Gaddafi, que está no Poder desde 1969 e hoje é o líder que há mais tempo está a frente de um país ininterruptamente. Um homem com idéias claramente psicopatas que lidera cerca de 7 milhões de pessoas africanas. Tem ligações estreitas com grupos radicais terroristas do Oriente Médio e possui ligações também estreitas com outros loucos a exemplo de Hugo Chávez da Venezuela.
O povo líbio acordou de um pesadelo de 41 anos de atrocidades e seguindo o mesmo do povo egípcio foi às ruas pedir para Kadafi largar o osso, porque afinal de contas, desde a independência da Itália em 1951, nada de melhor aconteceu ao povo líbio, que até hoje, vive apenas do malabarismo petrolífero comandado pelo Governo, que recentemente mandou matar cerca de 200 pessoas, somente porque protestaram nos últimos dias nas ruas de Trípoli.
República Islâmica do Irã, país que está cercado por povos diferentes e a margem do Golfo Pérsico; que já foi Pérsia até 1935 e que em 1979 sofreu um duro golpe revolucionário através do líder religioso conhecido como aiatolá Khomeini. Desde então, após 31 anos de ditaduras seguidas e disfarçadas de democracia, quase 70 milhões de iranianos somente enxergou a morte, a miséria e o descaso das coisas do povo. Atualmente comandado pelo déspota que atende pelo nome de Ali Khamenei, que manda no sanguinário Mahmoud Ahmadinejad, Presidente do país, o povo persa também quer mudanças, mas isso não é recente. Depois das eleições fraudulentas que reconduziram Ahmadinejad ao poder pela segunda vez, dezenas de manifestantes foram presos e mortos, somente porque protestaram nas ruas!
Reino do Bahrein que tem como Rei Hamad bin Isa al-Khalifa, está no Poder desde 2002, precedendo seu pai. No início Hamad Khalifa trouxe mudanças significativas para o pequeno Bahrein, como a libertação de prisioneiros políticos, direito de voto para as mulheres e eleições para o Parlamento, mas de nada adiantou fazer tudo isso e não conduzir o país com o amor de um monarca natural que enxerga seus súditos como auxiliares e não como escravos. Durante os últimos conflitos ocorridos nas últimas semanas o Rei mandou dar cerca de R$ 2 mil reais a cada família que ficasse em casa e não fosse ás ruas fazer manifestos; o resultado foi pior do que ele imaginava, pois a concentração popular que queria reformas, agora quer que ele saia imediatamente do poder, deixando o caminho livre para eleições diretas e uma esperança de tempos melhores. As ilhas que compõem o Bahrein não chegam a contar 1 milhão de pessoas e isso pode ser um fator de dificuldade popular, ante a presença de militares de outros países que apóiam o Governo, mas também pode ser um grande aliado, principalmente se explodir uma revolução de fato e tiverem que usar o mar como rota de fuga.
A República do Iêmen do Presidente Ali Abdullah Saleh, no Poder desde 1978. No Iêmen é o Presidente quem nomeia o seu vice-presidente e quem indica os 111 membros da Câmara Parlamentar Alta, a quem eles chamam de Shura (eles ainda chamam isso de DEMOCRACIA). É o país mais pobre do Oriente Médio e o único a viver predominantemente da agricultura por ter chuvas regulares. A população de quase 25 milhões cansados também de mais esta ditadura exige a saída imediata de Saleh do filé econômico que ainda resta. Há quem afirme que enquanto o povo passa fome nas ruas, Saleh dá banquetes em seus palácios luxuosos e afirma que irá fazer do país uma grande potência mundial...!
República Tunisina que teve até recentemente no comando o General Zine El Abidine Ben Ali desde 1987 após golpe de Estado, caiu diante dos protestos populares em Janeiro último. 11 milhões de tunisinos se cansaram do Governo após décadas de atrocidades e misérias, às mesmas reclamações dos outros povos árabes. O povo espera agora que haja mudanças sérias capazes de colocá-los a frente das decisões nacionais e que a Tunísia não seja apenas um país esquecido da África, conhecido apenas por ser braço do maior deserto do mundo.
Por fim, ligando o último (ainda) revolucionário popular, está República Árabe Síria, comandada com mão de ferro por Bashar Al-Assad há 11 anos no Poder, que sucedeu seu pai que ficou também por 29 anos seguidos. Se contarmos a ditadura como uma só, que o é; são 40 anos de massacre a 20 milhões de sírios que vivem com menos de R$ 2 mil por ano, enquanto seu líder é tido como um dos homens mais ricos da região. Os sírios, igualmente os tunisianos, egípcios, iranianos, líbios e todos os outros povos árabes, cansou-se de serem explorados como escravos; cansou-se de verem seus amigos sendo mortos por uma causa que somente fortalece os Governos e por isso também foram as ruas pedirem a saída imediata de seu líder.
Esta que é conhecida como a REVOLUÇÃO DE JASMIM; e que começou a explodir de fato em dezembro de 2010 depois que o vendedor tunisiano Tarek al-Tayyib Muhammad ibn Bouazizi ateou fogo em si próprio e fez com que o ditador Bem Ali renunciasse após 23 anos de tirania, promete ganhar cada vez mais adeptos pelo mundo árabe e mesmo contrariando as previsões dos mais estudiosos, que afirmam que muitas das nações árabes não sofrerão nada com esta revolução, quem já andou pelo Oriente Médio e Norte da África sabe que é uma questão de tempo para que os outros povos, a exemplo dos marroquinos, percebam também que seus líderes pensam mais neles próprios do que no país e que as gerações futuras não resistirão ante a eminente onda de enfraquecimento popular gerada pelos governantes.
Bouazizi perdera o pai quando contava 3 anos e desde então, estudava e vendia coisas nas ruas da Tunísia para ajudar a mãe e uma irmã; tudo que ele conseguia com suas vendas era cerca de R$ 130,00 por mês, quase o salário de um oficial egípcio que citei no início. Tarek Bouazizi tentou um emprego formal para ganhar um pouco mais e poder ver a sua família vivendo melhor (ou com menos desgraça); mas aos 27 anos sem jamais ter conseguido nada além de seus produtos que vendia nas ruas, e depois de ver o Governo confiscar seu carrinho de frutas; depois de ir pessoalmente falar com as autoridades e de receber um “não” como resposta; em 17 de Dezembro de 2010, na frente do prédio do Governo, ateou fogo em seu próprio corpo em protesto ao Governo que não enxergava a miséria alheia. Morreu 17 dias depois e teve cerca de 5 mil pessoas em seu funeral, que aproveitaram para protestar também!
Em sua carta de despedida Bouazizi disse: “Estou viajando mãe. Perdoe-me. Reprovação e culpa não vão ser úteis. Estou perdido e está fora das minhas mãos. Perdoe-me se não fiz como você disse e desobedeci suas ordens. Culpe a era em que vivemos, não me culpe. Agora vou e não vou voltar. Repare que eu não chorei e não caíram lágrimas de meus olhos. Não há mais espaço para reprovações ou culpa nessa época de traição na terra do povo. Não estou me sentindo normal e nem no meu estado certo. Estou viajando e peço a quem conduz a viagem esquecer”.
Qualquer semelhança entre a vida, história e morte de Bouazizi com a maioria dos árabes do restante do mundo, com certeza não será mera coincidência...


Carlos Henrique Mascarenhas Pires
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