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segunda-feira, 28 de março de 2011

Professor de universidade dos EUA faz "laboratório sexual" e causa polêmica

Em 21 de fevereiro, um professor de psicologia, especialista em “sexualidade humana” da Northwestern University (Chicago), convidou um casal de sadomasoquistas para fazer uma demonstração em seu laboratório, diante de uma centena de estudantes. Uma aula prática facultativa, como se dizia antigamente...

O casal se apresentou no “laboratório sexual” do professor, munido de um instrumento que teria no mínimo suscitado a curiosidade do divino Marquês de Sade, se não conseguido sua adesão entusiasta. A bem dizer, a coisa não é nada além de um vibrador elétrico e, ao que parece, ultra-eficiente. A prova: a jovem do experimento conta que atingiu o orgasmo em pouco menos de três minutos, manu electricitate. C.Q.D. - como queríamos demonstrar. O gozo feminino é calculável, e portanto pode ser repetido à vontade.
O professor de psicologia da sexualidade, que há muito tempo declarou que Freud era obsoleto e que a psicanálise era ultrapassada, por considerá-la uma farsa anacrônica, triunfou. É igualmente inútil invocar Lacan e o “gozo Outro”. A psicanálise? Uma ideia arcaica, um paquiderme metafísico lento demais e pesado demais, que deve ser urgentemente substituído pelos vibradores e pelas estatísticas. (Nos Estados Unidos, de fato, os pesquisadores em psicologia também ensinam as estatísticas)
Mas muito rapidamente a história rodou o campus, Chicago, o Centro-Oeste e os Estados Unidos. O presidente da universidade, sob pressão de ex-estudantes, de pais e de mecenas indignados, todos mencionando o preço exorbitante das anuidades dessa universidade (entre US$ 40 mil e 45 mil!), se viu obrigado a criticar, contra sua vontade, a desenvoltura do sexólogo. Caso não emitisse julgamento, seria ele o alvo de repreensões. Ele deveria ter suspendido a demonstração quando estavam se despindo... Mas o professor, embora tenha hesitado por alguns segundos a continuar quando a jovem tirava suas roupas, por fim se recompôs: como ele poderia justificar, a ele mesmo e a seus alunos, a interrupção de uma experiência tão iluminadora? Invocando o pudor? Que vergonha seria, para um militante da liberdade sexual e transgressor de tabus...
Um blog da principal revista do mundo universitário americano, “The Chronicle of Higher Education”, tomou a defesa do intrépido sexólogo, agora perseguido por jornalistas, pais de alunos e reacionários de toda estirpe: não teria ele, com sua audácia, provocado uma “conversa natural” sobre os limites daquilo que é admissível na universidade, sobre aquilo que o olhar pode suportar e sobre aquilo que é verdadeiramente intolerável para nosso pudor? Não seria ele o responsável por “um grande momento do ensino”? Não teria ele mostrado o quanto o sexo continua sendo um tabu, em nossas sociedades supostamente liberais e liberadas, sobretudo quando se trata de comunidades sexuais (sadomasoquista, gays, transgêneros, etc.)? Até que ponto nós, que nos dizemos modernos, continuamos sendo frustrados que não se conhecem? Até que ponto, afinal, o projeto das Luzes ainda falta ser construído? Estudantes, façam mais um esforço se vocês quiserem realmente ser
livres!

Lógica da rentabilidade e hedonismo da performance
Ao que me parece, podemos tirar algumas lições dessa trivial e curiosa história. Agora que a universidade americana está sujeita já há algumas décadas a uma onda de avaliações, agora que os critérios de julgamento da pesquisa e mesmo do ensino são a pesquisa anônima dos estudantes (ou seja, a satisfação do cliente), a quantidade de publicações, o número de diplomas conferidos e perspectivas profissionais para os formados, um professor rebelde autoproclamado, vanguardista e provocador da burguesia conduz uma pesquisa científica que permitirá aos consumidores que sejam ainda mais eficientes, que comprem mais e melhor, e gozem mais rápido.
Da cronometragem do gozo feminino, pode-se imaginar a vantagem que teria a indústria farmacêutica, o mercado do “human enhancement” e dos acessórios sexuais (aliás, não me surpreenderia se a venda de vibradores disparasse nos próximos meses...). Jean-Claude Michéa analisou bem a cumplicidade objetiva entre o sistema liberal e as reivindicações libertárias. Essa história é um caso clássico dessa relação.
Poderíamos rir dessa perfeita coincidência entre lógica de rentabilidade e hedonismo da performance. Mas, para além da constatação do interesse comum entre o mercado e a pseudoliberação do indivíduo, há o futuro das instituições de ensino superior nas democracias liberais: a educação, e especialmente as ciências humanas e o ensino das humanidades (artes, filosofia e literatura), tinham por missão confrontar os estudantes àquilo que, literalmente, não tem preço. Quer se trate de “eros”, de “philia” ou de “ágape”, o amor sempre foi, na tradição bíblica e humanista, até a psicanálise, o obscuro risco de uma superação e de uma “excendência”, segundo o termo de Emmanuel Levinas.
Transcender, exceder os limites do corpo - não seria essa a tarefa, como lembrava o mesmo Levinas em 1934, da tradição filosófica e espiritual ocidental, quer se trate dos três monoteísmos ou da investigação filosófica, de Platão ao existencialismo e à fenomenologia? Tarefa traída, segundo o mesmo Levinas, pelo determinismo biológico do nazismo e pelo materialismo da análise marxista... Sem mergulhar na reductio ad Hitlerum, deve-se constatar, nessa empreitada sem precedentes das lógicas de mercado sobre o ensino superior, a anulação do desejo, ou seja, da alma, e a abdicação do espírito.
*Bruno Chaouat, professor de literatura francesa, diretor do Centro de Estudos sobre a Shoah e os genocídios, Universidade de Minnesota (EUA).

Tradução: Lana Lim