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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

PROSA COM PATRÃO-VELHO

Parei diante da capela,
Tirei meu chapéu tapeado,
Abaixei minha cabeça
E meus joelhos se dobraram.
Ali falei com Patrão-Velho,
Sem minha boca mexer,
Contei-lhe tantas coisas,
E outras tantas pensei em dizer.

Eu ando por estes pagos
E como grulha que sou,
Faço coisas que não devo.
Na rinha, sou um guerreiro;
No rodeio, o primeiro no laço;
Não há ventana que não dome.
Nunca perdi queda-de-braço.
Da faca, eu tiro o fio;
Do trinta, o estardalhaço;
Não mamei em seio materno,
Por isso me chamam de guaxo.

Na empolgação campeira,
Eu esqueço meus limites.
Por china topo peleia,
Não gosto de gaudério mixe.
O trinta fala em seguida,
O vespeiro se espalha,
Num zumbido de balas;
O vivente recolhe os pelegos
E leva o pala de mortalha.

Tendo sanfoneiro,
Logo peço uma marca;
Se não tocar um xote,
Pois na dança eu sou guasca,
A gaita eu parto no meio
Pra que ninguém se divirta;
Eu tenho coceira no garrão
E almejo que alguém insista,
Nestas minhas gaudereadas,
Dos defuntos já perdi a lista.

Continuo teatino,
Gaudereando sem destino,
Pois a paixão em mim
Não quer acampar.
Agora, este meu peito,
Diante de Ti,
Chora com respeito;
E conversando com jeito
Pede uma orientação.
Eu não queria aceitar,
Sempre fui de desafiar,
E hoje, de joelhos,
Te peço perdão.

Patrão-Velho,
Esta prosa muito me custa;
Sabes que um orelhano
Não se entrega pro desengano,
Mas o relógio do tempo,
Como o urutau que não dorme
Enquanto a lua ilumina o céu,
Vai passando como vento;
E, assim como o candeeiro
Que clareia o galpão,
Estas noites de solidão,
Alumiam meus pensamentos.

Como ave fora do ninho,
Nestes pampas me criei sozinho.
Como um venta-rasgada,
Segui meu destino traçado
Sem respeitar aramados.
Agora, Patrão-Velho,
Aceita o perdão que pedi,
Pois oferto minha vida a Ti.
Permita-me que nestas coxilhas,
Junto com uma prenda farroupilha
Não surjam mais guaxos,
E, sim, peões com família.

Poesia de Luiz de Castro Bertol
27/05/1999

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